F. IS IN THE HOUSE

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:: 15.3.10 ::

Marge drives Lisa to band practice. Silence.

Lisa: Ahem. [Marge waits for her to say something, but Lisa turns away]
Marge: Now Lisa, listen to me, this is important. I want you to smile today.
Lisa: But I don't feel like smiling.
Marge: Well it doesn't matter how you feel inside, you know? It's what shows up on the surface that counts. That's what my mother taught me. Take all your bad feelings and push them down, all the way down, past your knees until you're almost walking on them. And then you'll fit in, and you'll be invited to parties, and boys will like you, and happiness will follow.
Lisa: [feeble attempt at a smile]
Marge: No, come on. You can do better than that.
Lisa: [a much brighter smile]
Marge: Aww, that's my girl. [rubs Lisa's hair]
Lisa: [through her teeth] I feel more popular already.

(...)

Marge stops the car. "Lisa, I apologize to you, I was wrong, I take it all back. Always be yourself. If you want to be sad, honey, be sad. We'll ride it out with you. And when you get finished feeling sad, we'll still be there. From now on, let me do the smiling for both of us.'' Lisa smiles and embraces her. "Okay, Mom.'' "I said you could stop smiling, Lisa.'' "I feel like smiling.'' Marge is touched.

:: Fábio 01:44


:: 5.3.10 ::

| Viagem pelo purgatório de mentes que vagam a pensar eternamente sem nunca achar uma resposta

Qual seu objetivo de vida? O som do vento nas árvores e dos passarinhos foi ficando mais fraco, diria desfocado. A mente pareceu se deslocar daquela situação, mas não foi para algum lugar específico, tal como naqueles livros de magia, que dizem que se transportar é algo perigosíssimo, pois nunca se sabe onde se vai aparecer, poderia ser bem no meio de uma parede de concreto, e aí? Mas a mente não foi para nada concreto, apenas se teletransportou para um não-lugar, um purgatório de mentes que vagam a pensar eternamente sem nunca achar uma resposta. A mente foi por lá, ficou uma eternidade ou duas e voltou. O olhar vago já dizia tudo, mas a boca trabalhou com os pulmões, as cordas vocais, os músculos e todo o resto e disse: "não sei".

A resposta veio com uma pergunta,e não há nada mais cruel do que uma resposta-pergunta. A mente acaba de voltar de uma terrível odisséia no purgatório das mentes que vagam a pensar eternamente sem nunca achar uma resposta, mal tem tempo de se recompor, e já encurralam ela contra o canto do pátio, sem um pingo de piedade. Meu Deus, e a piedade nessas horas? Um frasco, uma dose de piedade! Um pingo, por favor. Mas não, sem piedade agora garoto. A pergunta entrou como uma lâmina delicadamente afiada. Aquela mistura entre o belo e o perigo, entre contemplação e o fatal. Aquela fusão perfeita entre o bem e o mal tomando cada espaço vazio de sua mente e gritando: "então por que continua vivo?".

O canto dos passarinhos e o barulho das árvores desfocando, e a mente viajando em suas múltiplas dimensões da alma, em sua divina relação com a realidade, essa palavrinha intrigante, afinal, me diga você, grande Coruja, o que é a realidade? É minha mente? É meu corpo? É aquela esdrúxula definição? Posso muito bem pensar e não existir. Como nesse momento em que a mente viaja, nesse momento minha mente pensa, mas não pensa, existe mas não existe, e com isso eu existo. Mas não existo. Purgatório. Grande Coruja, pequena Coruja, nunca nos deu uma resposta, sempre nos deu mais dúvidas. Seria ingratidão reivindicar uma resposta? Deveria me sentir mal? Um significado, um signo, algo sólido, algo concreto, algo real, algo. "Talvez meu objetivo seja encontrar um objetivo". Existir e não existir. Perfeito, ecoam os passarinhos, ecoam as árvores, ecoa a mente, ecoa o corpo. A realidade estende um tapete vermelho. "Vá, meu filho".

:: Fábio 03:09


:: 28.11.09 ::

diante da indefinição do mundo, diante de tudo que não é apenas ponto de interrogação, mas reticências e reticências, vazio de tudo que não se conhece e pretende-se conquistar e abraçar com braços e pernas, unhas e dentes. diante de tudo que se é, mas não se é, porque não se sabe, não se entende, nem ao menos se tem a noção da existência. diante de tudo que nossa cabeça não entende e nunca vai entender, dessa sensação de não se sabe o quê, disso de se perguntar sobre o quê, afinal? disso de escrever sobre a complexidade titânica da realidade, que nos faz questionar sobre esse emaranhado cheio de significados, que contados assim, desse jeito, parecem uma grande angústia diante de um buraco bem fundo e vazio, que não mostra o fundo, que a gente não consegue entender nunca. por mais que a gente tente, a gente não compreende! e por mais que a gente saiba que nunca vai compreender a gente insiste em ficar nessa admiração, nessa contemplação, nisso que não acaba nunca e não se sabe o quê.

diante da complexidade monstra, onipotente, onipresente.

:: Fábio 15:27


:: 20.9.09 ::

| Chacina deixa quatro mortos e dois feridos em São José dos Pinhais

O som do tênis no asfalto ouvia-se em toda a rua. O ar entrando pelas narinas fazia barulho também, assim como as poucas moedas que chacoalhavam e batiam no cano de seu 38, apressadamente acomodado no bolso da calça jeans. O caminho que escolhera era o mais rápido até sua casa. Mas ele não precisava estar correndo por esse atalho agora, se há tempos atrás não tivesse entrado num outro caminho, que já não tinha mais volta.

As pernas faziam o que podiam. O corpo, já bastante desgastado para um jovem, não contribuía. Enquanto usava a força das coxas e agüentava o impacto nos pés ao percorrer sua via crucis, arrependeu-se de todo os pecados. Há sete anos, entrou para a escola. Há cinco anos, abandonou. Há quatro anos, fumou o primeiro baseado. Há três anos, aprendeu a roubar direito. Há dois anos, experimentou pela primeira vez cocaína direto na veia. Há um ano, foi expulso de casa. Há três meses, prometeu pagar toda sua dívida com um traficante que o ameaçava. Há três horas, recebeu uma ligação de casa - era a mãe pedindo socorro. Há vinte minutos, arranjou uma arma. Desde então, só o que faz é correr desesperadamente aquela rua escura e comprida.

Apesar das brigas constantes, dos roubos e da expulsão do próprio lar, ainda amava a mãe e as irmãs (meio-irmãs, a bem da verdade). Eram as únicas pessoas por quem tinha carinho. Nunca conheceu o pai. Odiava o padrasto.

Ainda correndo, lembrou da primeira vez que a irmã sorriu para ele, ainda recém-nascida, e ele também bastante pequeno. Lembrou de um longínquo Natal em que ganhou o brinquedo-febre da época, resultado das economias da mãe. As lágrimas saíam dos olhos mas logo tornavam-se secas pelo vento gelado da madrugada. Não podia deixar que sua família sofresse por sua causa. De repente, não muito distante, o barulho de tiros e gritos.

Com o desespero, acelerou a corrida. Virou a esquina. Todas as casinhas mal iluminadas fechadas, mas visivelmente com pessoas dentro, refugiadas. Para elas, mais um dia de inferno na região. Mas um dia como nenhum outro para esse garoto. Lá estava sua casa. Luzes acesas. Portão aberto. O coração parecia disputar espaço com os pulmões no peito comprimido. A mão sacou o revólver, a outra engatilhou. Os joelhos dobraram para a cabeça não ficar acima do muro. Os pedregulhos pressionados pela sola do tênis contra o concreto faziam barulho. A respiração ofegante também. Passo por passo, entrou pelo quintal, foi até a porta principal, entreaberta, e entrou. Os dedos não tiveram forças para segurar, e o 38 caiu no piso de madeira. A mãe estava desacordada no chão da sala, apoiada nas paredes, coberta pelo sangue que ainda escorria da cabeça. O corpo do marido inexplicavelmente parecia protegê-la. Andou dois passos, num ângulo que possibilitava enxergar as duas irmãs, uma de 11 e outra de 15, abraçadas no quarto, imóveis, ensangüentadas entre os ursinhos de pelúcia. Cambaleou dois passos para trás.

Não viu de onde veio o tiro. Os joelhos bateram no chão primeiro. O peito e o rosto, logo em seguida. Atrás dele, o policial que havia acabado de chegar ao local.

A manchete do dia seguinte juntava-se a outras do caderno policial. “Chacina deixa quatro mortos e dois feridos em São José dos Pinhais”. O delegado explicou: as vítimas eram ligadas ao tráfico de drogas. O leitor virou a página. O garoto ficou sem nome. Outros detalhes não foram contemplados pela reportagem e não tiveram mais relevância no dia seguinte.



Texto "inspirado" em fatos reais. Curitiba tem uma das regiões metropolitanas mais violentas do Brasil. Mas nós, do lado de cá dos limites do município, quase nunca nos importamos.

:: Fábio 20:42


:: 22.8.09 ::

Vou te dizer o que penso essa noite. Quero te dizer o quanto é legal quando as coisas fazem sentido o máximo possível, como é legal entender a natureza, e as pessoas, e Deus se ele existe, mas como é legal da mesma maneira ter um botão que desligue todo esse sentido e que nos mergulhe num poço de dúvida e insegurança, porque é isso que faz do humano humano afinal, mas não sei se você entenderia, então te levaria para o meio da grama, não o meio propriamente dito, pois levaria muito tempo a calcular isso e a noite é muito curta para perder tempo com essas bobagens matemáticas, então te deitaria lá por algum meio da grama e te faria olhar as estrelas e saber da nossa posição em relação aos firmamentos, isso é claro se os firmamentos assim, com essa robustez vocabular firme, forte e magnânima te trouxerem alguma segurança, mas se não trouxerem não é de todo ruim, já que daria a você a noção de como a incerteza torna o humano humano, mas isso já falei, embora a redundância possa te fazer entender melhor, mas não sei exatamente se você entenderia, pois você não é de entender muita coisa, você só é de ficar falando de relacionamentos amorosos ou não tão amorosos, a verdade é que isso enche o saco às vezes, desculpe se fui muito incisivo mas é que falo para não perder esse meu bem querer por você, e você sabe que eu bem te quero muito, assim como bem quero todo mundo, talvez não todo mundo mas a maioria das pessoas, até as chatas, mas a verdade, de novo, sempre ela, é que você é um tanto quanto ininteligível às vezes, fala de muita coisa a toda hora, mas nenhuma eu consigo entender plenamente, com exceção de quando você fala de relacionamentos, que é a parte que eu entendo, porque não há muita coisa que não dê pra entender, está claro tanto para mim quanto para qualquer um que venha a se aventurar em seus fluxos neurais, pois teus olhos imperfeitos, olhos de cigana oblíqua e dissimulada, diria um, e repetiriam milhões de bocas, cara de puta, retrucaria outro, a verdade, olha de novo ela, é que seus olhos não passam de uma seqüela do que o passado fez com você, pobrezinha, te disseram que te amavam e depois disseram que amavam outra pessoa, ora, isso não é coisa que se faça pois amar é uma palavra muito forte, e não pode ser jogada aos quatro ventos, mas sim reservada a pessoas especiais, e cá entre nós, você poderia ser uma pessoa muito especial, mas hoje já não é, Deus do céu, o que fizeram com você que hoje poderia ser especial e não é, vai morrer só isso, mas existiria alguém para pegar tua mão e dizer que te amam verdadeiramente, e você não repudiar esse romantismo repentino como uma forma de defesa dos teus sofrimentos passados, e que se tornam presentes com certa freqüência, mas sim apegar-se não só de corpo como bem faz, e como faz bem, mas também de alma, como diriam um e repetiriam mais outro milhão de bocas num clichê gigantesco, mas que só se tornou esse clichê gigantesco bem sabes porque, ou não sabes já que não entende de muita coisa a não ser de relacionamentos carnais, coisa que, já falei, você é especialista, esse clichê gigantesco, retornemos ao meu fluxo neural inclassificável, me perdoe deixar você à sujeição de absorver toda essa trilha psicológica, mas se você chegou até aqui é porque talvez esteja gostando, e se está gostando vou continuar, mas mesmo que demore páginas, e não dê pra classificar isso em alguma coisa, pois não sei se é crônica conto ou rompante confessional, desculpem, desculpem todos, desculpe mundo, não classifico o que digo, sou um idiota, mas voltando dessas bobagens de classificar, a dizer todas essas coisas quero na verdade dizer só uma coisa, que o clichê gigantesco só virou um clichê gigantesco porque a humanidade o usou à exaustão e a humanidade só o usou em exaustão pois não há verdade mais absoluta para o humano humano que isso, ou talvez até haja, mas que é verdade absoluta é, entregar-se de corpo e alma e ser correspondido tanto quanto o primeiro fez é uma das maiores realizações nessa vida, não sei se você consegue entender, pois não entendes de muita coisa como já disse, mas vou manter minha opinião mesmo que não queiras entender, caso não querias só te levarei para o meio da grama, não bem o meio como já falei, a noite curta, as bobagens matemáticas, não é pra isso que existe a grama nem a noite, mas te deitaria na grama, te encheria com essa homilia neural, te falaria das estrelas e de Vênus que está visível por essas épocas, te falaria qualquer bobagem parecida, e você não entenderia bulhufas, mas buscando segurança nas coisas não tão seguras e certas, mas que trazem alento momentâneo por algum tempo, fiaríamos abraçados debaixo da chuva, e transformaríamos a grama num igapó particular, e nos afogaríamos no meio da madrugada, em nossos próprios refúgios ininteligíveis, eu em meus pensamentos, você em seu corpo.

:: Fábio 14:38