F. IS IN THE HOUSE

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:: 28.11.09 ::

diante da indefinição do mundo, diante de tudo que não é apenas ponto de interrogação, mas reticências e reticências, vazio de tudo que não se conhece e pretende-se conquistar e abraçar com braços e pernas, unhas e dentes. diante de tudo que se é, mas não se é, porque não se sabe, não se entende, nem ao menos se tem a noção da existência. diante de tudo que nossa cabeça não entende e nunca vai entender, dessa sensação de não se sabe o quê, disso de se perguntar sobre o quê, afinal? disso de escrever sobre a complexidade titânica da realidade, que nos faz questionar sobre esse emaranhado cheio de significados, que contados assim, desse jeito, parecem uma grande angústia diante de um buraco bem fundo e vazio, que não mostra o fundo, que a gente não consegue entender nunca. por mais que a gente tente, a gente não compreende! e por mais que a gente saiba que nunca vai compreender a gente insiste em ficar nessa admiração, nessa contemplação, nisso que não acaba nunca e não se sabe o quê.

diante da complexidade monstra, onipotente, onipresente.

:: Fábio 15:27


:: 20.9.09 ::

| Chacina deixa quatro mortos e dois feridos em São José dos Pinhais

O som do tênis no asfalto ouvia-se em toda a rua. O ar entrando pelas narinas fazia barulho também, assim como as poucas moedas que chacoalhavam e batiam no cano de seu 38, apressadamente acomodado no bolso da calça jeans. O caminho que escolhera era o mais rápido até sua casa. Mas ele não precisava estar correndo por esse atalho agora, se há tempos atrás não tivesse entrado num outro caminho, que já não tinha mais volta.

As pernas faziam o que podiam. O corpo, já bastante desgastado para um jovem, não contribuía. Enquanto usava a força das coxas e agüentava o impacto nos pés ao percorrer sua via crucis, arrependeu-se de todo os pecados. Há sete anos, entrou para a escola. Há cinco anos, abandonou. Há quatro anos, fumou o primeiro baseado. Há três anos, aprendeu a roubar direito. Há dois anos, experimentou pela primeira vez cocaína direto na veia. Há um ano, foi expulso de casa. Há três meses, prometeu pagar toda sua dívida com um traficante que o ameaçava. Há três horas, recebeu uma ligação de casa - era a mãe pedindo socorro. Há vinte minutos, arranjou uma arma. Desde então, só o que faz é correr desesperadamente aquela rua escura e comprida.

Apesar das brigas constantes, dos roubos e da expulsão do próprio lar, ainda amava a mãe e as irmãs (meio-irmãs, a bem da verdade). Eram as únicas pessoas por quem tinha carinho. Nunca conheceu o pai. Odiava o padrasto.

Ainda correndo, lembrou da primeira vez que a irmã sorriu para ele, ainda recém-nascida, e ele também bastante pequeno. Lembrou de um longínquo Natal em que ganhou o brinquedo-febre da época, resultado das economias da mãe. As lágrimas saíam dos olhos mas logo tornavam-se secas pelo vento gelado da madrugada. Não podia deixar que sua família sofresse por sua causa. De repente, não muito distante, o barulho de tiros e gritos.

Com o desespero, acelerou a corrida. Virou a esquina. Todas as casinhas mal iluminadas fechadas, mas visivelmente com pessoas dentro, refugiadas. Para elas, mais um dia de inferno na região. Mas um dia como nenhum outro para esse garoto. Lá estava sua casa. Luzes acesas. Portão aberto. O coração parecia disputar espaço com os pulmões no peito comprimido. A mão sacou o revólver, a outra engatilhou. Os joelhos dobraram para a cabeça não ficar acima do muro. Os pedregulhos pressionados pela sola do tênis contra o concreto faziam barulho. A respiração ofegante também. Passo por passo, entrou pelo quintal, foi até a porta principal, entreaberta, e entrou. Os dedos não tiveram forças para segurar, e o 38 caiu no piso de madeira. A mãe estava desacordada no chão da sala, apoiada nas paredes, coberta pelo sangue que ainda escorria da cabeça. O corpo do marido inexplicavelmente parecia protegê-la. Andou dois passos, num ângulo que possibilitava enxergar as duas irmãs, uma de 11 e outra de 15, abraçadas no quarto, imóveis, ensangüentadas entre os ursinhos de pelúcia. Cambaleou dois passos para trás.

Não viu de onde veio o tiro. Os joelhos bateram no chão primeiro. O peito e o rosto, logo em seguida. Atrás dele, o policial que havia acabado de chegar ao local.

A manchete do dia seguinte juntava-se a outras do caderno policial. “Chacina deixa quatro mortos e dois feridos em São José dos Pinhais”. O delegado explicou: as vítimas eram ligadas ao tráfico de drogas. O leitor virou a página. O garoto ficou sem nome. Outros detalhes não foram contemplados pela reportagem e não tiveram mais relevância no dia seguinte.



Texto "inspirado" em fatos reais. Curitiba tem uma das regiões metropolitanas mais violentas do Brasil. Mas nós, do lado de cá dos limites do município, quase nunca nos importamos.

:: Fábio 20:42


:: 22.8.09 ::

Vou te dizer o que penso essa noite. Quero te dizer o quanto é legal quando as coisas fazem sentido o máximo possível, como é legal entender a natureza, e as pessoas, e Deus se ele existe, mas como é legal da mesma maneira ter um botão que desligue todo esse sentido e que nos mergulhe num poço de dúvida e insegurança, porque é isso que faz do humano humano afinal, mas não sei se você entenderia, então te levaria para o meio da grama, não o meio propriamente dito, pois levaria muito tempo a calcular isso e a noite é muito curta para perder tempo com essas bobagens matemáticas, então te deitaria lá por algum meio da grama e te faria olhar as estrelas e saber da nossa posição em relação aos firmamentos, isso é claro se os firmamentos assim, com essa robustez vocabular firme, forte e magnânima te trouxerem alguma segurança, mas se não trouxerem não é de todo ruim, já que daria a você a noção de como a incerteza torna o humano humano, mas isso já falei, embora a redundância possa te fazer entender melhor, mas não sei exatamente se você entenderia, pois você não é de entender muita coisa, você só é de ficar falando de relacionamentos amorosos ou não tão amorosos, a verdade é que isso enche o saco às vezes, desculpe se fui muito incisivo mas é que falo para não perder esse meu bem querer por você, e você sabe que eu bem te quero muito, assim como bem quero todo mundo, talvez não todo mundo mas a maioria das pessoas, até as chatas, mas a verdade, de novo, sempre ela, é que você é um tanto quanto ininteligível às vezes, fala de muita coisa a toda hora, mas nenhuma eu consigo entender plenamente, com exceção de quando você fala de relacionamentos, que é a parte que eu entendo, porque não há muita coisa que não dê pra entender, está claro tanto para mim quanto para qualquer um que venha a se aventurar em seus fluxos neurais, pois teus olhos imperfeitos, olhos de cigana oblíqua e dissimulada, diria um, e repetiriam milhões de bocas, cara de puta, retrucaria outro, a verdade, olha de novo ela, é que seus olhos não passam de uma seqüela do que o passado fez com você, pobrezinha, te disseram que te amavam e depois disseram que amavam outra pessoa, ora, isso não é coisa que se faça pois amar é uma palavra muito forte, e não pode ser jogada aos quatro ventos, mas sim reservada a pessoas especiais, e cá entre nós, você poderia ser uma pessoa muito especial, mas hoje já não é, Deus do céu, o que fizeram com você que hoje poderia ser especial e não é, vai morrer só isso, mas existiria alguém para pegar tua mão e dizer que te amam verdadeiramente, e você não repudiar esse romantismo repentino como uma forma de defesa dos teus sofrimentos passados, e que se tornam presentes com certa freqüência, mas sim apegar-se não só de corpo como bem faz, e como faz bem, mas também de alma, como diriam um e repetiriam mais outro milhão de bocas num clichê gigantesco, mas que só se tornou esse clichê gigantesco bem sabes porque, ou não sabes já que não entende de muita coisa a não ser de relacionamentos carnais, coisa que, já falei, você é especialista, esse clichê gigantesco, retornemos ao meu fluxo neural inclassificável, me perdoe deixar você à sujeição de absorver toda essa trilha psicológica, mas se você chegou até aqui é porque talvez esteja gostando, e se está gostando vou continuar, mas mesmo que demore páginas, e não dê pra classificar isso em alguma coisa, pois não sei se é crônica conto ou rompante confessional, desculpem, desculpem todos, desculpe mundo, não classifico o que digo, sou um idiota, mas voltando dessas bobagens de classificar, a dizer todas essas coisas quero na verdade dizer só uma coisa, que o clichê gigantesco só virou um clichê gigantesco porque a humanidade o usou à exaustão e a humanidade só o usou em exaustão pois não há verdade mais absoluta para o humano humano que isso, ou talvez até haja, mas que é verdade absoluta é, entregar-se de corpo e alma e ser correspondido tanto quanto o primeiro fez é uma das maiores realizações nessa vida, não sei se você consegue entender, pois não entendes de muita coisa como já disse, mas vou manter minha opinião mesmo que não queiras entender, caso não querias só te levarei para o meio da grama, não bem o meio como já falei, a noite curta, as bobagens matemáticas, não é pra isso que existe a grama nem a noite, mas te deitaria na grama, te encheria com essa homilia neural, te falaria das estrelas e de Vênus que está visível por essas épocas, te falaria qualquer bobagem parecida, e você não entenderia bulhufas, mas buscando segurança nas coisas não tão seguras e certas, mas que trazem alento momentâneo por algum tempo, fiaríamos abraçados debaixo da chuva, e transformaríamos a grama num igapó particular, e nos afogaríamos no meio da madrugada, em nossos próprios refúgios ininteligíveis, eu em meus pensamentos, você em seu corpo.

:: Fábio 14:38


:: 12.8.09 ::

O colírio forçadamente pingado nos olhos não arde mais. São tantos exames, contra tantas enfermidades, que já não preocupa essa infinidade de tormentos cotidianos. Tormentos tolos, no dia a dia, ou de dia em dia, ou de dia à noite, seja noite ou seja dia, tormentam tolos, sem propósito maior, apenas com objetivo vão, leviano, fútil de atormentar, e de lembrar algo implícito no dia-a-dia-noite-dia: já que os tormentos tolos não incomodam nestes horizontes, são os tormentos maiores que se põem a atormentar.

:: Fábio 00:50


:: 19.6.09 ::

| A vida pelos mortos, ou os mortos pela vida
Como a rotina de uma funerária é administrada pela filosofia de vida de Joana

O som dos sapatos destoa do resto dos lamúrios na capela Rubi. Joana dá alguns passos para, de longe, observar se o chá com biscoitos já foi servido. Não é cortesia nem gentileza, faz parte dos serviços contratados pela família no pacote. Seu crachá a identifica – Janaína Aparecida Fagundes, coordenadora. Ela sabe: tudo tem de estar impecavelmente correto, pois um pequeno erro pode se tornar extremamente desconfortante naquele momento de tristeza.

A capela Rubi é uma das mais nobres. A localização é privilegiada – fica no térreo, local acessível para crianças, senhoras, pessoas com deficiência. Evita o tão material elevador, ferramenta que tira todo o espiritualismo da situação. O leve tecido da cortina branca, combinado com a brisa que vem de fora da janela, fornece um tipo de sensação celestial, bem como as poltronas e paredes claras. A climatização é ideal – não tão quente, nem tão frio.

Enfim é servido o lanche na ante-sala da capela, depois de uma quase imperceptível puxada de orelha no pessoal da copa por Joana, que entre uma ordem e outra, diz num tom suave, monocórdio e sincero: todos que trabalham aqui têm que ter carinho e respeito ao próximo. O rosto dos funcionários, ao estender a bandeja, abre-se num sutil sorriso. Alguns poucos notam o olhar, apenas pegam um copinho de chá e se voltam a suas tragédias. Mas para outros, o inesperado conforto em meio ao sofrimento faz desenrolar mais algumas lágrimas e dizer um profundo obrigado.

O comportamento discreto e fraterno de Joana parece se repetir não só em todos os que ali trabalham, mas também nas estruturas físicas do local. As luzes indiretas de diferentes cores, colocadas ali com base na cromoterapia, as músicas suaves nos corredores, o design dos móveis, tudo parece bastante acolhedor. Como ela diz, é preciso pensar nos mínimos detalhes, para que o sofrimento das pessoas seja amenizado.

Entre olhares e conversas baixas, uma mulher no centro da capela Rubi recebe um abraço de um recém-chegado. Troca algumas ingênuas palavras. “Ele está em paz agora”, diz ela num sorriso esperançoso, e volta a tocar as mãos repousadas do marido dentro do caixão.

Além desse, Joana ainda tem outro velório para cuidar, na capela Esmeralda. Checa se está tudo em ordem, dá uma passada numa sala restrita, nomeada pela sinalização local de “administração”, atende um telefonema, e em seguida dirigir-se ao hall de entrada. Alguns segundos de observação e pronto, já avistou alguma coisa errada. Ao lado de uma das lixeiras, destoava do ambiente relaxante um copo de plástico jogado ao lado de uma das lixeiras, sobre uma pequenina poça de café. Os sapatos atravessam calmamente todo o ambiente, em mármores e granitos claros, e param ao lado de um funcionário, de terno, gravata e gel no cabelo. Joana cochicha alguma coisa, ele concorda e vai embora. Ela fica ali, a observar o resto. Surge novamente o funcionário com um pano de chão e uma grande sacola preta. Limpa a poça de café gelado, deposita o copo no lixo, retira a tampa da lixeira, recolhe a já saturada sacola que lá estava, amarra a boca, descansa a sacola ao lado da lixeira, pega a nova sacola, dá uma singela sacudida para estufar de ar, coloca na lixeira, fecha a tampa, apanha o saco amarrado e o pano sujo, para só então desaparecer na administração.

E lá fica Joana, a observar serenamente tudo a sua volta. Há nove anos coordenadora da funerária – desde que foi inaugurada a empresa, portanto –, faz questão de expressar em cada atitude e em cada palavra seu cuidado e respeito com o ofício e com seus clientes. Típico de uma mãe, sua receptividade serena acolhe qualquer um. Seu aperto de mão parece um abraço. O olá-como-vai parece é dito por alguém que entende que qualquer um pode ter um grande problema.

Mas como, e por qual motivo afinal, alguém se interessa por trabalhar num local desses? Ela explica que foi aos 45 anos, quando pediu a aposentadoria, que resolveu tomar um rumo diferente de sua vida. Como sempre trabalhou com administração, resolveu usar o que já sabia para fazer algo diferente.

Parece que não, mas faz todo o sentido. A aposentadoria é um momento crucial na vida de uma pessoa. O abandono do trabalho faz o indivíduo entrar para o que as estatísticas chamam de “inativo”. Num sistema tão ligado ao trabalho, como na nossa sociedade, deixar de produzir e deixar de ser ativo pode significar inutilidade. A situação se complica devido ao avançado da idade. Afinal, já que não se tem idade nem para trabalhar, se terá para o quê – podem pensar. Daí, deixar de trabalhar pode representar um abreviamento da vida. Ou seja, pode, para algumas pessoas, estar mais perto da morte.

Joana decidiu confrontar essa morte repentina. Quando pediu o emprego na funerária, estava não à procura de mais uma fonte de renda. Estava à procura de uma maneira de dar sentido à sua vida. Então, pôs-se a trabalhar tão perto da morte, que já não há teme mais. As pessoas precisam aceitar a morte, diz ela, porque a morte faz parte da vida. Como alguém que fez da vida sua profissão, desempenha seu trabalho de maneira tão pessoal, que é quase impossível enxergar alguma imperfeição na rotina da empresa. Hoje ela parece cuidar da funerária como quem cuida da própria vida.

Assim, quando assumiu as atividades na funerária, colocou toda uma filosofia de vida em prática. Buscando ter relevância para os outros, Joana buscou confortar as pessoas em um dos momentos em que elas mais precisam de ajuda – a morte. Assim, não só o trabalho dela, como ela ganham relevância e importância através do “respeito ao próximo”, como ela mesmo diz. Esse pensamento foi passado a todos os funcionários, e é exigido todos os dias por ela. Introduziu a algo tão incômodo como a morte sua própria razão de existir.

Joana confere no relógio o horário de mais uma das etapas na capela Rubi. Pelo rádio, emite o sinal a todos os funcionários encarregados. Um deles entra na capela, pede licença em voz alta e anuncia a próxima cerimônia, a ser realizada no auditório Monalisa, no terceiro andar. Os familiares fazem as últimas despedidas e se retiram silenciosamente. Logo, a sala fica vazia. O caixão será fechado e encaminhado ao auditório.

Enquanto confere o movimento, Joana explica os cuidados que se deve tomar com a pessoa em luto. A pessoa geralmente não se alimenta direito, e pode apresentar fadiga, náuseas, dores de cabeça e fraqueza. Temos de cuidar de tudo isso, diz ela. Daí a preocupação em servir o lanche. Além disso, devem ser providenciados a todos os clientes um caixão – que ela chama de urna – padronizado e ornamentado com flores, véu bordado, castiçais, carro fúnebre, livro de presença, coroa de flores, santinhos para divulgação da missa de sétimo-dia, manto mortuário e um assistente social à disposição da família para orientação.

Entretanto, outras preocupações são necessárias quando se perde um familiar ou alguém muito próximo. Nem neste momento as pessoas estão livres das burocracias. Para se cremar o corpo, por exemplo, são necessárias as assinaturas de dois médicos diferentes. É preciso também todos os documentos de liberação do corpo e uma série de trâmites como os serviços em cartório, todos facilitados pela funerária. Como a família pode ficar pensando nessas papeladas num momento desses, questiona ela.

Quando um corpo chega à funerária, por exemplo, é preciso acionar uma equipe de profissionais e realizar a higienização do corpo. É dado um banho naquela pessoa, e é feita toda uma preparação para a exposição à família, diz ela. É um local restrito, onde só entram profissionais treinados e preparados para a atividade. Todos os funcionários precisam ser vacinados, por exemplo. É um ambiente contaminado, explica Joana, pois embora a pessoa seja um ente querido, todo corpo morto começa a juntar bactérias e a apresentar decomposição.

Depois de higienizado, e depois de receber substâncias germicidas, o corpo vai para a chamada tanatopraxia. Através de técnicas de injeção de líquidos específicos, é feita a manutenção da aparência natural do corpo, semelhante à que ele apresentava em vida, evitando a evidência da putrefação. A preparação do corpo dá uma imagem tranqüila e serena, minimizando os efeitos do sofrimento ou da enfermidade, que ficam negativamente marcados na memória afetiva da família.

A cerimônia no auditório Monalisa é conduzida por um orador ecumênico ou qualquer outro orador, dependendo da preferência religiosa da família. A cerimônia pode ser mais simples, ou bem mais encorpada. Tudo depende de quanto a família pretende gastar. A chuva de pétalas sobre o caixão é uma opção. Além disso, pode-se encomendar uma revoada de pombas brancas. Para os mais discretos, vídeos personalizados com imagens de paisagens e músicas suaves são oferecidos, junto a uma carta à pessoa que partiu. Feita a homenagem, o serviço fica completo e os presentes são dispensados. O corpo será enfim encaminhado ao crematório, na Região Metropolitana.

E para onde vão as cinzas da pessoa cremada? Pode ser jogada no mar, ao vento, no jardim. Pode também ser guardada, ou em casa ou na própria funerária, diz Joana ao mostrar o “cemitério do futuro”, como ela costuma chamar. Um ambiente climatizado, com luzes em azul e branco, pedras brancas imitando um jardim e uma música suave. As estantes de vidro circundam o local, onde são colocadas as cinzas. Em cada espaço, uma pequena urna e objetos pessoais. Numa delas, uma foto de um jovem oriental, com um mouse de computador. Em outra, a imagem de uma senhora num belo porta-retrato, e uma caneca.

Se a família quiser, as cinzas podem ser retiradas e colocadas novamente. Esse aqui já foi passear no Japão com a esposa, diz Joana ao apontar a imagem de um senhor com olhos puxados em uma das estantes, ao lado de uma bandeira japonesa. O fato de haver mais de um japonês ali não é coincidência. Os budistas são os que mais aceitam a cremação, diz ela, diferente dos católicos e evangélicos, para quem a morte ainda é muito temida.

A pessoa pode alugar o espaço pelo tempo que quiser, e tudo isso tem um preço. Mas Joana garante que é bem menor do que um enterro tradicional. Ela diz que hoje, um lote nos cemitérios municipais de Curitiba pode chegar a 25 mil reais, sendo que a cremação custa em média 3 mil. As luzes e o som ficam ligados 24 horas por dia? Não, desmistifica ela. Agora há pouco, uma cliente veio visitar o parente falecido, por isso foi ligado. Isso foi pensado para que a pessoa se sinta num ambiente familiar, diz ela.

De longe, Joana observa os presentes recebendo os santinhos da missa de sétimo-dia ao final da cerimônia, alguns agradecendo pelos serviços prestados. Para a empresa, mais propaganda de boca a boca garantida. Para Joana, mais uma família satisfeita. Pacíficos, os amigos e familiares descem a escada conversando calmamente, e embora ainda exista a dor da perda, são nítidos os olhares pacíficos e calmos, diferentes de maioria dos outros velórios e enterros, onde o rosto das pessoas em luto ficam inchados, vermelhos, cansados. Uma das senhoras desce, amparada por duas pessoas. Engana-se quem pensa que trabalhamos para os mortos – disse Joana depois de receber um abraço da senhora que calmamente agradeceu “todo o serviço prestado e todo o apoio”, para depois enxugar uma lágrima e se retirar – trabalhamos para os vivos.


:: Fábio 00:36